Conversar! Será que as futuras gerações serão capazes de conseguir verbalizar oralmente, olhos nos olhos, o que sentem perante outra pessoa? O diálogo, o olhar, o toque no cabelo, uma lágrima a escorrer, um sorriso, um desabafo, uma gargalhada, um suspiro profundo, um berro de irritação, um aperto de mão, um pulo no coração… Parar, deitar com quem se gosta, com quem se está naquela noite e ver as estrelas, conta-las em conjunto, de mãos dadas, e dizer – aquela é alguém reluzente que conheci e que sempre fará parte de mim! Um jantar romântico à luz das velas. Uma música dançada lentamente para a eternidade, com cumplicidades, com patetices, com sussurros e emoções e pena que a música termine. Fantasias de crianças, angústias do presente e o revelar receios do futuro. Descobrir o paladar de um ovo mal mexido, um livro entre lotes deles numa casa velha com cheiros peculiares no meio da terra do nada. Aquela carta escrita há muitos anos, reveladoras de segredos nunca revelados que causam, simultaneamente, consternações e alívios. Numa conversa íntima entre duas pessoas que gostam uma da outra e que não têm pudor em o admitir, realça-se a força de um simples ato que faz parte dos primórdios da humanidade – a comunicação no seu estado mais natural.

O filme “Blue Jay”, com uma fotografia fantástica e um homem e uma mulher deliciosamente genuínos, retrata todos os nadas vitais descritos no primeiro parágrafo. Amanda e Jim transporta-nos para uma melancolia doce, salpicada com amargos que nos invade a alma a preto e branco. Duas interpretações simples, mas sublimes, que nos deixam a pensar de uma forma invasora, contagiante e curiosos do que vão dizer ou fazer no minuto de película seguinte. Um ex-casal clássico, saudoso, saudável, com muitos mistérios, gostos em comum, gestos carentes e costumes para redescobrirem num feliz reencontro. Tal e qual um velho álbum de fotografias guardado com o pó e cheiros de uma gaveta do móvel relíquia.

Será que as crianças e adolescentes do agora irão ser capazes de ver, sentir e experimentar diálogos afetivos presentes num filme tão diferente como o descrito? Fica a preocupante dúvida com a quase certeza de que não o serão. Drástico.

“Blue Jay”, um romance realisticamente belo e nostálgico, preto no branco, com Mark Duplass e Sarah Paulson, escrito por Isabel Aghahowa. Veja-o num dispositivo com Netflix, literalmente, perto de si!