Passaram 16 anos. Ele já não escrevia um poema desde o lançamento do seu livrito. Nem um verso, sequer. Nem uma rima atirada para o “Notas” como faria, outrora, com relativa facilidade. Talvez fossem os imensos sonhos, agora perdidos, que o tenham feito escrever durante horas a fio palavras bonitas, sinceras aos olhos de quem as haveria de sentir ao as ler. Os sonhos, as ilusões, as expectativas de quem queria isto e lutava por aquilo eram, por esses tempos, sentimentos apáticos de quem já nada, nem ninguém, o faziam acreditar em coisas boas. Apatias de um poeta que se interroga se algum dia o foi, na sua mera existência. Existencialismos constantemente perturbadores de uma mente de sanidade já duvidosa e complexa. Os medos e receios apoderavam-se da sua própria essência controversa e vaga.

De vez em quando, para arejar o já pouco arejável, lá conduzia o joystick da sua eterna e inferiorizante cadeira que, em velocidade de passos humanos, o levava a uma praia onde permaneciam recordações enterradas na areia, à qual, nem chegava fisicamente. E o mar ali a escassos metros, parecia-lhe tão distante de confidências outrora partilhadas entre ambos. O boné que dizia “FC PORTO” escondia um rosto sério, cansado de sorrisos falsos. Na sua interna realidade, não tinha que sorrir nem o faria por pura hipocrisia. Debruçado sobre uma estaca de pau que segurava o ranger de um passadiço rasgador de corridas por ele invejadas. De mão trémula no queixo, ali permanecia durante algumas horas, olhando para as rochas agressivas em busca de corpos femininos que ainda lhe despertavam algumas sensações naturais num homem pleno das suas faculdades intelectuais e seletivas.

Ao longe, avistou-a. Aproximava-se em sua direção. Num ápice, com toda a tranquilidade, refletiu sobre o que lhe tinha a dizer. Absolutamente nada. Deu um volta de noventa graus às rodas de uma cadeira liberta e foi embora. As palavras que ficaram por dizer há 16 anos, essas, o vento já as tinha levado.