Era uma vez um passarinho azul que vivia numa gaiola cinzenta, bem no meio de um bosque da Lapónia. No passado, era a companhia perfeita de uma senhora solitária que via na cor das penas do seu passarinho a esperança. Com o passar do tempo, a mulher foi perdendo essa esperança e também se esquecia do pássaro que chilreava vezes sem conta para alegrar os dias frios da sua dona. Já estava cansado, com fome e frio, o passarinho de bom coração. Não tinha comida nem água e a sua gaiola já cheirava mal. Mas a ave, ao contrário da senhora que outrora a tratava muito bem, ainda não tinha perdido o brilho dos olhos. O reflexo da esperança.

Aproximava-se o Natal. Era tradição as pessoas da vizinhança irem a casa daqueles e daquelas que mais precisavam de companhia e um sorriso nos lábios. A sua senhora, com vergonha dos vizinhos, lembrou-se de tratar do seu pássaro azul sem nome. Começou por limpar o compartimento de baixo da gaiola velha e apertada. Depois colocou um resto de sementes num recipiente já com musgo. Pegou num outro já quebrado e foi ao poço do quintal buscar algumas gotas de água suja e fria. Contudo, esqueceu-se de fechar totalmente a alavanca da porta torta da gaiola de paus já mal tratados. Era assim como aquelas tiras de madeira que o passarinho se sentia, mal tratado e esquecido, não passando de um mero objeto de decoração numa casa sombria de uma mulher amargurada pela vida.

O passarinho, que nunca tinha voado, percebeu que chegara a hora de partir. Comeu algumas daquelas sementes secas, encheu-se de coragem e empurrou a porta entreaberta com todas as suas forças e conseguiu voar até um buraco de um vidro partido da janela da sala onde permanecia fechado e condenado ao isolamento. Sentia, pela primeira vez, a liberdade e o ar gélido daquelas montanhas do país do Pai Natal. Não parou de esvoaçar, apesar da amargura de ter de deixar para trás uma mulher triste e sozinha. Nada mais podia fazer por ela. Todavia, podia fazer algo por si próprio.

Voou durante dias sombrios e noites escuras, entre vales de árvores assustadoras e ruídos estranhos, sem nunca perder a determinação de encontrar um rumo. A direção certa para a felicidade que procurava para si próprio. Com a esperança que jamais perdera, aguentou pesados flocos de neve que se abatiam sobre as suas asinhas frágeis mas, ao mesmo tempo, plenas de convicção. Desviava-se de paus inquietos, folhas gigantes, aves de meter medo e ventos fortes que o abanavam bruscamente. O pequeno pássaro azul era mesmo corajoso e destemido. Nada nem ninguém o fariam parar até encontrar o seu porto de abrigo.

Com o passar desses dias difíceis de dezembro, a neve ia ficando para trás e o passarinho ganhava cada vez mais confiança num futuro risonho e de esperança. Percorreu todo o leste e centro da Europa, sentido agora brisas de ar mais temperado que aquecia seu pequeno corpo já muito cansado e o faziam flutuar no caminho da liberdade. Sobrevoou os céus da Península Ibérica e o seu rumo natural era o norte. O passarinho corajoso sonhava ver o mar.

Ao longe, já voando baixinho em terras de Portugal, avistou um lindo farol luminoso que se engrandecia sobre o oceano. A alegria do pequeno pássaro audaz comovia as gaivotas apaziguadoras de um sentimento de liberdade que mal cabia no seu bondoso peito e grato coração. Desceu então em direção ao farol mágico e repousou durante umas horas num vidro quente de luz virado para o mar.

Era 24 de dezembro, véspera de Natal. O passarinho ambicionava agora ter um lar quente e feliz. Procurou então terras altas que, no fundo, representavam suas origens. Do céu noturno e estrelado do Interior, avistou, numa aldeia iluminada, uma linda casa amarela que, pela sua chaminé, saia um fumo quente de paz e harmonia. Da mesma, saiam também ecos genuínos de risos de crianças. O pássaro azul sentiu que estaria ali o seu novo lar, descendo velozmente e decidido a entrar por uma janela ainda aberta. Assim fez e dirigiu-se para o topo da árvore de Natal rodeada de um menino e uma menina que abriam os seus presentes. Os dois irmãos ficaram maravilhados com aquela visita inesperada, suplicando aos pais para os deixarem ficar com aquela dádiva natalícia. A resposta foi afirmativa! Os risos, sorrisos, correrias e festinhas multiplicaram-se e a felicidade ficou para sempre.

Os meninos puseram-lhe o nome de Pássaro Azul.

Manuel Francisco Costa
7 de dezembro de 2017

(escrito ao som de Really Slow Motion)