Certo dia, escrevi como imaginaria ser “normal por um dia”, partindo do princípio que não o sou. Pelo menos, a maioria das pessoas não me vê como tal e, uma boa parte dessa maioria não tem a capacidade de me tratar com algo tão simples – normalidade. São as tais manias obsessivas por maiorias, sejam elas de cariz político, religioso, social… O que é bom, o que está bem, estabelece-se nas maiorias. Irrita-me esse facto. Bem, adiante…

Há dias, sonhei que um génio, um elfo, não sei bem o que era tal personagem, concedeu-me um desejo: – Podes ser o que quiseres durante uma semana!… Estupidamente (ou talvez não) escolhi ser um homem estátua, um mimo, daqueles que não se mexem durante largas horas, estão a ver? Faz algum sentido, senão vejamos: Nunca estou quieto. Acho que até enquanto durmo devo mexer pestanas e unhas. Essas pessoas, de estranha profissão, despercebidos, costumam parar, literalmente, em ruas movimentadas, cheias de vidas, sorrisos, sol, alegria, moedas a “telintar”, papéis arremessados para o chão… Nesse tal sonho indiscreto, percebi que é isso que me falta sempre que não estou a dormir.

Nesse sonho de simplicidades utópicas, escolhi como veste de trabalho, um blaser azul marinho. Camisa e calças azuis do céu. Laço, luvas, cinto, meias e sapatos, esses quatro adereços eram de cor branca. Rapei o cabelo. Pintei minha face, cabeça e pescoço com uma tinta metalizada, brilhante, também esta a fugir para tons azulados de um coração celeste. O tal ser poderoso de luz questionou: – Onde queres tu trabalhar nesses setes dias? Escolhi um dos patrimónios mais belos do mundo, a esplendorosa ribeira de um Porto que também é meu. É de todos nós!

Lá, pude contemplar crianças a correr em meu redor, patentes carimbos de genuína felicidade ingénua. Casais de mãos entrelaçadas, intercaladas com beijinhos doces. Cães e gatos de olhares ternurentos e línguas de fora. Idosos caminhando devagarinho, celebrantes da vida eterna. Voos de bandos de pombos largavam asas de liberdade plena. Pontes metalicamente belas, suspensas sobre um rio tranquilo de inquietudes de rabelos castanhos e amarelos, da foz até ao infinito imaginário que atravessava socalcos de uma região de verde beleza. Tudo foi meu durante uma semana cerebral, sem me mexer. Tudo mexeu comigo.

Foram 168 horas de sonho, incutidas em um de alguns minutos quietos.

MFC