Desesperança

O frio voltou. Olha-se em frente e não se vê nada, a não ser matas queimadas por um fogo deserto de piedade, oriundo de vontades de humanos que jamais o serão. Ceifaram vidas de pessoas vividas que viviam com quase nada, mas tinham a luz do sol, essa estrela quente feita de fogo, o mesmo elemento que as queimou, em muitos casos, literalmente. Foi o destino macabro da nossa gente. Aquela genuína de aldeias de caminhos discretos enfiados num verde sem fim que o teve. Ardeu esse verde e, com ele, na fúria de fogos irados colocados, aqui e ali, por fulanos mal formados, enganos da natureza, desapareceram bonitas e simples casas de pedra, feitas de suor e muitos anos de luta, de imensa labuta para se ter algo nesta passagem e, de repente, tudo isso reduzido a paisagem, cinzento-escuro e amarelo, entre o bem e o mal, um paralelo de lágrimas, emoções, silêncios inacabáveis e vazios nos corações. Um sentimento de perda profunda de quem já nada tem, perante um sol de hipocrisia que continua a brilhar a vinte de novembro. Já tem a nossa mágoa. Quer também a nossa água.

O vento, esse que ajudou o fogo e quem o originou, levou no seu ventre sons longínquos de gritos de dor, de perda que permanecerão eternos nas recordações de um verão severo que despiu com assédio a alma de um Portugal bonito até então. País de um mar que se sente forte mas que nada pôde fazer perante a morte, a não ser recolher as lágrimas apuradas como o sal que o compõe. Um mar insosso, transformado em pétalas cinzas que assombram as terras de uma península que o toca há milhões de anos. Dessas florestas, agora reduzidas a nada, fizeram-se as caravelas que corajosamente o navegaram outrora, sem medos nem lágrimas profundas que agora desaguam em faces de desespero e desesperança.
Vem aí o Natal! Época contraditória de esperança e reflexão. Que seja um Natal com velas de luz onde o fogo é uma gota inofensiva como o dedo de uma criança. Que a chuva chegue mansinha em sintonia com o lume das lareiras que irão aquecer sorrisos de todos nós.
Que a desesperança se transforme em força para plantarmos pequenas árvores que darão cor e sentido aos Natais das futuras gerações. Que se acendam esperanças em nossos corações.
Manuel Francisco Costa
20 de novembro de 2017