“Aparentemente Diferente” é um livro especial de uma pessoa especial. O seu autor, Manuel Francisco Costa, sofre desde a nascença com as limitações impostas por uma paralisia cerebral mas nunca deixou que tal impedisse de alcançar seus objectivos. Hoje é designer gráfico da FPCEUP e concretizou agora outro dos seus sonhos, ver “Aparentemente Diferente” ser lançado. Ao lermos o livro descobrimos que Manuel Francisco Costa, não é uma pessoa tão diferente de nós, quanto a sua deficiência física nos faz supor. Em “Aparentemente Diferente” deparamo-nos com vontades, desejos, medos e anseios que são comuns a quase todos nós. Aliás, são tais características que fazem de nós humanos.

As seguintes declarações de Manuel Francisco Costa a HypeZine reforçam essa ideia e ao mesmo tempo permitem ao leitor conhecer um pouco mais sobre a obra e vida do autor.

manuel francisco

Manuel Francisco Costa

Porquê “Aparentemente Diferente”? O que é isso de “Aparentemente Diferente? 

Na verdade, foi a minha irmã que sugeriu o título e eu concordei de imediato. Todos somos diferentes mas, sem dúvida, quem tem uma deficiência física mais visível tende a ser mais diferente aos olhos de quem o olha. Sempre tentei ser o menos diferente possível dos demais e, com 40 anos de idade, sinto-me igual aos ditos normais e diferente de todos, pela essa própria diferença que existe em qualquer um de nós. O livro, também este é diferente de todos os biliões que existe mas este, o meu, tem a particularidade de retratar um homem aparentando diferente aos olhos da sociedade, utilizando um lado mais poético, mais romântico para vincar esse dar a conhecer a essência de alguém, os seus sonhos, pensamentos, sentimentos, devaneios e paixões.

Fala-nos um pouco sobre ti. Quem é e como é a pessoa por detrás do autor do livro “Aparentemente diferente”?

Humilde! Será o vocabulário que melhor me caracteriza. Mas também um sonhador, um guerreiro, alguém que nunca desiste daquilo que sabe ser capaz de alcançar, mesmo que tenha de esperar mais tempo por esse alcance. O facto de lidar com pessoas com habilitações superiores, dá-me uma bagagem cada vez mais abrangente para perceber a minha exacta missão nesta vida. Sou um romântico portista. Um inconformado tranquilo. Procuro a felicidade plena, se é que esta existe.

“Aparentemente Diferente” não é o teu primeiro livro pois lançaste à anos outro livro intitulado por “Nadas Vitais”. O que difere o novo livro do “Nadas Vitais”?

O “Nadas Vitais” foi escrito por um miúdo de 16 anos que já revelava alguns dotes para a escrita, feliz, que não tinha ainda noção de que tinha realmente uma diferença que lhe iria colocar algumas barreiras no seu caminho. Esse pequeno livro poderia ser escrito por qualquer outro adolescente da minha idade. Foi, essencialmente, um simples projecto do 10 anos que vendeu 200 exemplares num só dia.

Peguei em sementes firmes, castanhas, muitas,
Com o meu jeito “desajeitado”,
Lá as acertei no solo esburacado
Em terra de trajes e tradições,
Outrora, leito de couves, tomates, feijões…
Fé em que essa nespereira nasça.
Momento simples e único, espontâneo,
Que marcou com raça,
Que nunca na terra mexeu,
Quem nunca cedeu
À tentação de plantar
Um caroço, uma flor…
O que for!

Não é atitude minha,
É a de um Portugal inteiro,
Deserto de coragens,
Repleto eucalipto e pinheiro
E terras de por cultivar.
Paisagens.
A fome agradece.
Seria tão fácil sassear
Quem dela padece!
E trocar longos anos de estudos e escolas
Por galochas, ar puro e sacholas?
Não me parece!
Resta-me esperar que essa nespereira cresça,
Símbolo de alguém mentalmente sereno.
Como uma criança, que floresça
Num campo nunca pequeno.

A pequenez e a mediocridade,
Somos nós que as fazemos.

nespereira

“Aparentemente Diferente” foi editado pela Mais Leituras. Como surgiu esta colaboração?

Tendo o livro pronto, comecei a procurar editoras, naturalmente. Surgiram algumas propostas até bastante interessantes. Na FPCEUP, existe uma livraria, a LivPsic, que tem uma parceria com a editora “Mais Leituras”. Um grupo de docentes do Departamento de Ciências da Educação juntou esforços, estabeleceram um acordo com o proprietário da livraria e apoiaram a obra. Surgiu o “Aparentemente Diferente”.

Tive a oportunidade de assistir a apresentação do teu livro. Foi uma cerimónia bastante agradável. Que sensações te despertou?

Essa sessão correu muito bem, superando as minhas próprias expectativas. Sempre achei que não iria ser capaz de enfrentar uma plateia, de falar em público e de me expor como realmente sou. Nessa tarde, ficaram patentes valores como o afecto, a amizade, o respeito pela diferença. Dei e recebi! O tal mundo melhor passa por aí – a Partilha de valores que se vão perdendo no tempo. Cada pessoa presente naquele auditório fez, acredito, o mundo um bocadinho melhor.

Neste percurso contaste com diversas pessoas que colaboraram contigo e ajudaram-te a concretizar esta meta. Quem foram essas pessoas? Já agora, que outras metas ou sonhos gostarias de alcançar num futuro próximo?

Duas pessoas foram essenciais nessa tarde – a minha irmã e a minha colega e amiga Mafalda Lopes. Sem elas, teria sido muito mais difícil. Foi também uma bonita homenagem à minha mãe, o grande motor da minha vida. E depois a presença de grandes amigos, de docentes, de pessoas do meu passado, de pessoas anónimas e até da comunicação social. Senti que foi um agradecimento mútuo entre os presentes. Tenho outros objectivos de vida, com certeza. Um curso superior está nos meus horizontes, confesso. Não descarto a possibilidade de vir a existir uma nova obra. Mas agora, o que quero mesmo é ir de férias!!!

Queres deixar algumas palavras finais?

A sensação de ver as pessoas a comprarem um trabalho meu é indescritível. Bloggers como tu, a pedirem-me entrevistas, é motivo para ficar lisonjeado.

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