Lutar, batalhas, derrubar obstáculos, atingir metas, encontrar armas para atingir objetivos, matar desejos, desafiar o próximo ou a si mesmo, enfrentar fantasmas, vencer, perder… O nosso dia-a-dia está uniformizado para essas expressões e condicionantes bélicas, mesmo sem nos apercebermos. Mesmo que sejam vocábulos que atinjam somente o nosso inconsciente, a verdade é que esses tais comportamentos bélicos da chamada sociedade moderna manifestam-se mal abrimos os olhos, de manhã, e começamos a lutar contra o os dígitos do despertador, do smartphone, do smartwatch, do relógio da parede da cozinha ou do auto-rádio do carro. O tempo é uma vítima inocente que sofre essas lutas e correrias contra ele próprio. Afinal, a dita sociedade moderna assenta em pilares comuns a dezenas de milhares de anos – a guerra!

E tudo é uma guerra, mesmo a tentativa de incutir valores que tragam uma real melhoria da condição humana. Debrucemos-nos em exemplos concretos. As grandes organizações ambientais travam lutas constantes na tentativa de fazer deste planeta um lugar mais habitável. Camiões humanitários enfrentam autênticos arsenais para levar comida a quem tem fome. Os refugiados que fogem das guerras instaladas nos seus países são, muitas vezes, recebidos como terroristas e criminosos, mesmo havendo protocolos que, supostamente, foram criados para acolher bem esses milhares de seres humanos. E a simples adoção de uma criança?! Uma verdadeira guerra, muitas das vezes, perdida à nascença. Os debates políticos que, supostamente, serviriam para projetar o futuro de uma pequena terra ou de uma grande nação, transformam-se em batalhas campais diárias. As greves são um direito do trabalhador, geralmente comandadas por forças sindicais, sendo essas as vozes de comando, lá está!

No recreio, as crianças brincam aos policiais e cowboys ou então estão focados nos telemóveis e consolas a jogarem milhentos títulos com tiros, granadas e muito sangue à mistura. Bem, no meu tempo era mais “Tank Wars”, “Space Invaders” ou, no mínimo, Batalha Naval! Se formos pelo caminho da sétima arte, temos um amontoado de filmes históricos que nos leva a cenários com espadas, arcos e flechas, catapultas, canhões, granadas e todos os engenhos explosivos que se possam imaginar. Saga favorita – A Guerra das Estrelas. Série de TV da moda – A Guerra dos Tronos!

O futebol, que deveria ser uma festa, é, acima de tudo, uma guerra extremamente feroz dentro e fora das quatro linhas. Bem, em Portugal, mais fora do que dentro, vergonhosamente. O nosso Hino é do mais bélico que pode haver. Os Lusíadas. Os castelos, fortes e ruínas que se espalham por um país que se diz dos mais pacíficos do mundo. E estaria aqui até amanhã de manhã a refletir sobre os sinais constantes de guerrilha em cada dia das nossas vidas, mas não posso. Os ponteiros do relógio são ditadores de um tempo sem tréguas, onde se luta por tudo e por nada.

A vida até poderia ser bela se não fosse tão bélica.

Manuel Francisco Costa
8 de janeiro de 2018