Faltavam 5 dias para o começo de um grande sonho. A viagem! Não era uma viagem qualquer, era a minha, aquela com que sonhava há tantos anos. Consegui transformar essa tremenda utopia numa vertiginosa realidade através de uma inesperada bolsa de Erasmus que assegurava voos, alojamento, uma refeição diária e uma terceira pessoa com esses mesmos subsídios que eu próprio convidei para me ajudar a colmatar as necessidades específicas da minha paralisia cerebral. Não tive dúvidas na escolha. Recaiu numa “princesa” que, sem se aperceber, rendia-se aos meus encantos escondidos e ofuscados pelos seus próprios. Aceitou e eu rejubilei. Por dentro, dançava!

A ansiedade aumentava. Os ansiolíticos também. A minha irmã tinha me comprado uma mala toda fashion, como só ela sabe comprar. Naquele “baú encantado” levava roupa interior, 3 pares de calças de ganga, camisolas quentes, 2 casacos soberbos do meu cunhado, o meu perfume, escova de dentes, a máquina de barbear e, no cimo de tudo, o mais recente cachecol do FC Porto. A música que me era fiel seguia no meu iPhone: Adele, Coldplay, Ludovico Einaudi e ainda várias versões acústicas do tema intemporal de Elton John “Your Song”. Na escola, os meus queridos sobrinhos soletravam que o tio ia a Paris. “O meu tio vai a Paris!”.

13 de novembro de 2017, 06h30 da manhã. Exactamente 2 anos após os bárbaros atentados que aterrorizaram a capital francesa. Feridas ainda por sarar. Fiz de conta que acordei a sorrir para a minha mãe. Ninguém acorda sem dormir. Estranhamente, sentia uma acalmia divina. Não sei bem explicar. Às 07h30 em ponto, estava um táxi adaptado à porta para fazer a curta viagem sentado na minha C300 até ao Francisco Sá Carneiro. No aeroporto, a família reunida à minha volta. O Bernardo já de lágrima no olho e a pequena Estrelinha apoderou-se do meu colo com carinha enganadora de santinha, como se fosse também embarcar com o tio armado em turista. Passavam 7 minutos das 8h00 e a “minha” companhia aparece, linda como nunca! Disse, simplesmente: – Olá!… Sorri com os lábios e com o meu olhar.

A partir daquele momento, eu entrava no meu sonho trocado por Viena. Tudo, para mim, era magia, até pela aproximação do Natal. A azáfama de quem chegava e partia, o controlo apertado no nosso “check-up”, o colocar da minha cadeira no porão, a nossa subida cuidadosa e triunfal pela escadaria até à porta do avião, a simpatia das hospedeiras de bordo, o sentarem-me no banco à beira da janelinha, o aperto do cinto, a voz sonora, a descolagem. Tudo era perfeito. Ela, ao meu lado, valia mais do que a própria perfeição! No virar da rota, pude ver a minha praia e o cume do Obelisco da Memória. Perdemos-nos nas nuvens…

Ainda de manhã, aterrámos em Paris. A minha boca não se fechava com tanto deslumbramento. Desde a passagem pelo Aeroporto de Paris – Charles de Gaulle, seguimos de metro até ao hotel onde íamos permanecer durante essa preciosa semana. Eu nunca estive tão feliz por estar vivo numa cidade do mundo, com uma beleza incontestável e onde já se respirava liberdade porque os meses antecedentes foram de muito trabalho, insistência e exigências para que a normalização parisiense e europeia fosse restabelecida na sua plenitude, pilares baseados na alegria, na fraternidade e na livre circulação de pessoas. O meu único receio era somente como me iria adaptar a uma pessoa de quem gostava muito e que eu sabia ser um sentimento recíproco mas rapidamente esses complexos passaram com risos, sorrisos, toques e cumplicidades. Se derramava bebidas ou alimentos, riamos e tudo era motivo de diversão sem repreensões, algo também inédito no livro das minhas vivências. Dormíamos no mesmo quarto, em camas diferentes mas que, por vezes, se aproximavam para parvoíces deliciosas que me arrancavam do peito um sentimento que não sei explicar. Encontrei a mulher perfeita que me julgava perfeito também. Incrível e inacreditável até há poucos dias atrás. Encontrei em Paris, cidade sempre iluminada, de música e contrastes, a minha principal razão para viver dali para a frente.

Entre visitas a universidades, jardins, monumentos, ruelas e o rio, terminámos a odisseia sem fim no topo da Torre Eiffel, onde lhe perguntei: – Ficas comigo para sempre?

MFC, 14 de dezembro de 2017

Uma data fictícia como todas as palavras acima escritas.