Tua sombra é o reflexo do meu desejo.
Sempre foi!
Cinzento que não vejo… mas sinto…
Sentimentos enterrados no tempo,
ainda em mim respiras,
sons solenes pressinto,
pensamentos rasgados que me retiras,
sem teres culpas espontâneas,
mesmo que não me venhas.
Jamais quererás vir, eu sei.
Sentir.

Um amor que não desabrochou
por alguém que por ti chorou,
que te amou,
sem ser amado.
Homem modesto que se apaixonou
por uma musa de altivez,
nas entrelinhas de um passado
que se desfez…
Que passou.

Indelicadeza a minha.
Ousar voar no teu Céu,
pousar em tua juventude,
repousar perto de tua sombra,
contemplar tua genuina inquietude,
entrar na fina costura do teu véu.
Fui-te àspero e rude.
Ridícula e insensata minha atitude.
Desculpa Mulher ofuscante
da sua própria sombra.

A poesia está zangada comigo.
Não mais a escrevi.
Penso que ela gosta de ser escrita
por vocábulos que lhe retirava,
exprimia sozinho com essa por aqui,
versos de gravita.
Ao vento atirava,
na esperança que voassem até ti.
O vento tem asas que nunca vi.

Deves estar cansada de seres invadida
como a própria poesia
farta de mim.

Se quiseres, paro de vez.
Tens a minha palavra.
A mesma que roubei à poesia,
amiga… inimiga também, talvez,
para te abordar com cobardia.
Nunca deixei de ter esta mania
de desafiar tua altivez.

Ofereço-te o poema que te devia.
Depois, pago-o à arte poética.

Define, por favor, o destino
de minhas asas pesadas de ferro!
Continuo a forjar como um menino,
sonhador, que anseia contemplar
a luz da tua iluminada sombra?

Dá-me um berro!
Grita-me bem alto, Princesa!
Com convicção e firmeza.
Pousarei essas asas de ferro,
condicionantes de uma liberdade que anseio.

Se quiseres, desisto de voar.

MFC
7 de abril de 2018